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Criança e Adolescente

10/05/2010

SAÚDE - Paraná tem altos índices de gravidez na adolescência

Só em Londrina, índice de mulheres que tiveram filhos precocemente é de 16%; saída para o problema pode estar na educação.

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No imaginário de muitas adolescentes, ainda persiste a ideia que se elas não cederem à relação sem camisinha perderão o namorado (Foto: Reprodução)

Nos últimos cinco anos, o percentual de mulheres que tiveram filhos antes de completar 19 anos em Londrina ficou na média de 16%. Em outros municípios abrangidos pela 17ª Regional de Saúde os números assustam ainda mais. Em Prado Ferreira, a apenas 53 quilômetros de Londrina, as adolescentes foram responsáveis por 40,91% dos partos no ano de 2005. Naquele mesmo ano, este percentual foi de 36,84% em Cafeara (Norte).

O alto índice de jovens que têm suas vidas transformadas pela maternidade precoce motivou a promulgação, em maio do ano passado, de uma lei estadual criando a Semana de Orientação sobre a Gravidez na Adolescência, que acontece sempre no início do mês de maio nas escolas públicas. Além de intensificar, nesta época, as discussões em torno da maternidade, os educadores têm sido incentivados a trabalhar durante o ano todo questões que podem ser decisivas na vida dos jovens, como o uso de drogas.

No caso da gravidez, a orientação da Secretaria Estadual de Educação (Seed) é que sejam fomentadas discussões que não se restrinjam à questão biológica. "Recomendamos que sejam discutidos também os aspectos sócio-econômicos e culturais da maternidade, além das questões de gênero, já que o ônus, a responsabilidade de um filho, quase sempre fica para as mulheres", lembra Dayana Brunetto, coordenadora do Núcleo de Gênero e Diversidade Sexual da Seed.

Ela ressalta que ainda são muito fortes a opressão e a dominação masculina, por isso uma das questões trabalhadas é o empoderamento das jovens mulheres, que vai refletir, por exemplo, no momento de negociar com o parceiro o uso de preservativo. "No imaginário de muitas adolescentes, ainda persiste a ideia que se elas não cederem à relação sem camisinha perderão o namorado e nunca mais encontrarão alguém igual", diz. Segundo Dayana, as ações são realizadas de forma integrada com as Unidades Básicas de Saúde (UBSs).

Para a técnica pedagógica e responsável pelos trabalhos de gênero e diversidade sexual do Núcleo Regional de Educação (NRE) de Londrina, Sandra Mara de Andrade, só o conhecimento será capaz de mudar a realidade. "O melhor caminho é o da educação. O assunto tem que ser trabalhado nas escolas e também nas famílias. Mas os resultados não são imediatos, eles vão aparecer aos poucos", argumenta.

Sandra explica que até 2009 a educação sexual era trabalhada nas escolas mas apenas pelo professor de Ciências. A partir da promulgação da lei nº 16.115/2009 direção, equipe pedagógica e professores discutem juntos os temas que serão trabalhados durante o ano.

Limites

A psicóloga Wilma Silva Ribeiro, membro do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente, explica que uma das características daqueles que estão saindo da infância é testar frequentemente sua onipotência. Eles acham que têm controle sobre qualquer situação e que os problemas só acontecem com os outros. "A adolescência é a fase de testar limites, de transição entre o mundo mágico (infantil) e o mundo real (adulto). Por isso eles se arriscam o tempo todo e também testam os adultos o tempo todo, até para descobrir que tipo de pessoa eles querem ser. Estas jovens que se tornam mães na adolescência antecipam sua entrada no mundo adulto."

Grávida na primeira relação

Na Unidade Básica de Saúde (UBS) do Jardim Marabá (Zona Leste de Londrina), as jovens grávidas com menos de 20 anos representavam, em dezembro de 2008, mais da metade das gestantes atendidas. Atualmente, segundo informações da direção, elas representam cerca de 20% dos atendimentos. Jessica, de 18 anos, é um caso que retrata a realidade de muitas moradoras da região. Ela ficou grávida pela primeira vez aos 15 anos, e depois novamente aos 16. Os filhos são de pais diferentes, que não assumiram suas responsabilidades. Hoje ela vive com a mãe e outras sete pessoas, entre adultos e crianças, com a renda do Bolsa Família. "Os dois estão registrados só no meu nome", conta.

No auge da adolescência, Jessica teve que aprender na marra que ser mãe é muito mais complicado que brincar de boneca. "Mudou tudo na minha vida. Antes eu estudava, ficava na rua até a hora que queria, hoje eu fico só em casa, cuidando das crianças." Como a maioria das jovens, ela revela que, apesar dos alertas da mãe, nunca achou que pudesse engravidar. "Eu não levava muito a sério. Fiquei grávida já na primeira relação." Jessica conta que parou de estudar na 6ª série e nunca teve aula de educação sexual.

Aos 28 anos, Kelly Rodrigues dos Santos procura incentivar a filha, de 10 anos, a priorizar os estudos antes de conhecer a maternidade. "Eu engravidei pela primeira vez aos 17 anos. Eu tinha noção do que podia acontecer comigo, e mesmo assim não me cuidava. A força que eu não tive dos meus pais quero dar à minha filha, para que ela estude, se forme, arrume um bom emprego e só depois pense em casar e ter filhos." Há 1 ano e 7 meses Kelly teve mais um filho, antes de 'fechar a fábrica'.

Silvana Leão - Folha de Londrina

[Fonte: BondeNews - 10/05/2010]

 

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